CF: Fui para a pensão mais vagabunda que você possa imaginar. Lá eu
encontrei a Marília Branco, atriz brasileira e ex-mulher do Adolfo Celi.
Tornamo-nos amigos. Eu nunca ficava em casa, estava sempre na rua, procurando
emprego, com minhas fotos debaixo do braço. Um dia eu estava na Via Veneto quando vi uma coroa ruiva,
cheia de joias, mostrando as coxas (risos). Senti o cheiro do dinheiro! Cheguei
junto, me apresentei e conversamos por um tempo, eu já falava um italiano bem
razoável. Ela contou que era uma condessa suíça, mas que morava na Itália há
alguns anos. Eu não menti, admiti que era um ator brasileiro desempregado e que
as coisas não estavam “acontecendo” para mim em Roma. Eu ainda estava falando
quando ela me convidou para jantar. Na casa dela. É incrível, mas foi
exatamente assim que aconteceu. Ela me passou o endereço, Via Cassia Antica, se não me falha a memória. Lembro que precisei
pegar dois ônibus para chegar até lá e tive que pedir umas liras emprestadas
para o zelador da pensão, um egípcio. Cheguei ao apartamento, comi o melhor
jantar em meses e fomos para a cama. Contei sobre minhas aventuras em Roma e
disse: “Olha, estou duro, sem um centavo”. Naquela mesma noite, ela me convidou
para morarmos juntos. “Mas você é louca, eu não tenho nada, você vai ter que me
sustentar!”. Ela não ligava. Fomos até à pensão e ela quitou minhas dívidas,
acredita? Moramos juntos por um ano. Nesse período, caguei para tudo, inclusive
para a minha carreira. Viajamos por toda a Europa, íamos esquiar na Suíça e frequentei
festas incríveis. La dolce vita.
O casório de Celi e Marília Branco. Acervo Fábio Vellozo
FV: Conheceu muitas personalidades nessas festas?
CF: Sim, na maioria políticos. Mas lembro de ter conhecido o Clint
Eastwood.
FV: Eastwood?
CF: Sim, acho que ele havia acabado de fazer o primeiro western com o
Leone. Lembro que fui apresentado enquanto ele fumava um cigarro de maconha
(risos). Depois, eu e a condessa viemos para o Brasil, eu tinha dinheiro aqui,
meu apartamento estava alugado e meu pai ainda estava vivo. Ficamos por uns
dois meses até que ela soube que seu pai estava nas últimas. Ela voltou e eu
fiquei. Isso foi por volta de 1966 e foi aí que eu fiz o filme do Dionísio
Azevedo, O anjo assassino (1967).
O ANJO ASSASSINO estreava no RJ em maio de 1967, após participar do Festival de Cinema de Teresópolis...
...onde foi detonado pelo cronista Carlinhos Oliveira, do JB, na edição de 4 de maio de 1967. Acervo JB
FV: Mas Celso, você fez sua estreia no cinema italiano em 1964, no filme
Michelino Cucchiarella (inédito no
Brasil, Itália, 1964), dirigido por Tiziano Longo.
CF: É verdade, nem me lembrava. Acho que fiz esse filme quando ainda
morava com o Wladimir. Era uma cópia de Marcelino
pão e vinho (Marcelino pan y vino, Itália/Espanha, 1955), que havia sido um sucesso mundial
alguns anos antes. Ao invés de Pablito Calvo, nós tínhamos um garoto italiano,
Maurizio Mazzei.
Ivy Holzer, Carlo Reali e Celso Faria num raro still de MICHELINO CUCCHIARELLA. Acervo Fábio Vellozo
FV: O roteiro é do futuro diretor de westerns Edoardo Mulargia e um de
seus companheiros de elenco é o também futuro diretor Vincenzo Musolino, com
quem você trabalhou posteriormente. Como foi o contato com eles no set de
filmagem?
CF: Não houve contato! Eu não me recordo de ter conhecido Mulargia nesse
filme e, mais tarde, quando Musolino se tornou um de meus melhores amigos,
descobrimos que havíamos atuado em Michelino
Cucchiarella e não lembrávamos um da cara do outro! (risos)
Eu não tinha nada quando fiz esse filme. Quando finalmente
estreou e estava sendo exibido num cineminha poeira no subúrbio de Roma, eu
simplesmente não tinha dinheiro para comprar o ingresso. Fiquei parado no
lobby, olhando os cartazes e algumas fotos em que eu aparecia.
FV: Depois de O anjo assassino,
o que fez você voltar para a Itália?
CF: É simples: eu não tinha realizado o meu sonho.
A entrevista abaixo foi conduzida em Maricá (RJ), no início de 2003, na casa do ator Celso Faria. Foi publicada uma única vez, no mesmo ano, numa versão traduzida para o inglês para o número 62 do lendário fanzine norte-americano WAI! (Westerns... All'italiana!), do pesquisador Tom Betts. É a mais completa entrevista conduzida com Celso e foca na sua carreira no cinema italiano, especialmente nos westerns spaghetti, mas acaba traçando um painel da dolce vita romana dos anos 1960 e da indústria cinematográfica local.
Essa é a parte 1 de um total de 7.
Celso Faria e Fábio Vellozo. Niterói, 2003. Acervo Fábio Vellozo
Boa leitura e divirtam-se!
Fábio Vellozo: Quando criança, você era um fã de westerns? Quem eram
seus heróis de infância?
Celso Faria: Eu amava tanto o gênero que, no carnaval, eu só me
fantasiava de caubói. O meu ídolo era o Wiliiam Boyd, o Hopalong Cassidy.
FV: Você era fã dos westerns spaghetti antes de ir para a Itália atuar
no gênero?
CF: Sim! Sergio Leone era um gênio. O filme que ele fez com o [Charles]
Bronson...
FV: Era uma vez no Oeste.
CF: Sim, uma obra-prima, um dos maiores filmes de todos os tempos!
FV: Fale sobre você. O que você fazia antes de se tornar ator?
CF: Um monte de coisas. Meu primeiro trabalho foi como corretor de
imóveis. Eu já era fanático por cinema e trabalhava como figurante nos estúdios
da Vera Cruz, em São Paulo. Queria ser ator em tempo integral, mas era
impossível, eu era um figurante, ganhava uma ninharia. Se largasse o emprego,
como iria pagar minhas contas? Quando a Vera Cruz praticamente faliu, eu
continuei como corretor de imóveis e depois arranjei trabalho como jornalista.
Naquela época, existia um jornal em São Paulo chamado O Tempo. Fui até à sede deles para vender um terreno ou coisa
parecida. O dono do jornal me viu e reconheceu meu rosto dos filmes da Vera
Cruz! Batemos um papo e ele me convidou para assinar uma coluna sobre a vida
noturna de São Paulo, que escrevi durante vários anos.
Cartaz de Rebelião em Vila Rica. Acervo Cinemateca Brasileira
FV: Seu primeiro grande trabalho foi em Rebelião em Vila Rica (1958), dirigido pelos irmãos Geraldo e Renato
Santos Pereira. O filme é uma versão moderna da Inconfidência Mineira, com a
ação situada numa universidade, em 1957. Como você conseguiu o papel?
Abílio Pereira de Almeida e Nydia Lícia na peça A MULHER DO PRÓXIMO (1949), escrita e dirigida por Abílio. Acervo CEDOC - Funarte
CF: Através de um homem chamado Abílio Pereira de Almeida. Ele era o
chefe na Vera Cruz quando eles retornaram com o nome Brasil Filmes. Esse cara
foi como um pai para mim, ele me adorava. Eu devo o Rebelião em Vila Rica a ele. Claro, os irmãos Santos Pereira me
aprovaram, mas foi o Abílio que os convenceu de que eu era capaz de fazer um
papel importante. Ele também foi responsável pela minha estreia no teatro, em uma peça escrita por ele. Fui muito elogiado por esse papel. Engraçado é que minha estreia também foi
minha despedida! Nunca mais fiz nenhuma peça depois disso! O Abílio
era um cara formidável. Anos mais tarde, quando voltei da Itália, ele foi a
primeira pessoa para quem liguei. Infelizmente, ele se matou em 1977.
Capa do DVD italiano. Acervo Fábio Vellozo
FV: Em 1962, você trabalhou em uma coprodução ítalo-franco-brasileira, Copacabana Palace.
Estreia de COPACABANA PALACE no circuito carioca em 2 de dezembro de 1963, via Condor Filmes. Acervo Fábio Vellozo
CF: Porra, eu me lembro da Sylva Koscina, um mulherão! Ela fazia um
piloto da ‘Panair’ no filme. Foi dirigido pelo Stefano Vanzina, que assinava
como Steno, um cara baixinho e muito magrinho.
Ele Ela #43 de 1972 com La Koscina na capa
FV: A maior parte da equipe era italiana. Qual a diferença para as
equipes brasileiras com as quais você estava acostumado?
CF: Nenhuma.
FV: Alguma anedota de bastidores?
CF: Porra, um monte! Lembro que rodamos uma sequência no Aeroporto de
Guarulhos e eu já estava preparado, vestido de piloto. Eu estava no lobby, a
caminho do set de filmagem e tive uma ideia: comecei a andar como se estivesse
bêbado! Fiquei gritando: “Cadê a merda do avião? Não vejo nada aqui!”. As
pessoas nas filas do check-in ficaram apavoradas! Quando eu finalmente cheguei
ao set, o Steno ria de quase rolar no chão! Ele me disse: “Ah, se eu pudesse
colocar essa ‘gag’ no filme!”. Fiquei contente.
FV: Você se lembra do fotógrafo do filme?
Massimo Dallamano em ação
CF: Sim, claro, Massimo Dallamano, o “El macacón”! A equipe só o chamava
assim, ele parecia um macaco! Um baita profissional, mas que nunca me convidou
para trabalhar com ele enquanto estive na Itália. Filho da puta (risos). Ele
era casado com uma brasileira naquela época, se não me engano.
FV: Além de Koscina, o elenco ainda incluía uma estrela, a francesa
Mylène Demongeot e a Laura Brown.
CF: A Laura se tornou uma grande amiga quando morávamos em Roma. Eu não
lhe mostrei as fotos? [Celso mostra uma foto de Laura dedicada para ele]. Ela
fez um filme com um diretor chamado Guido Malatesta...
FV: Caçadores de cabeças
(Maciste contro i cacciatori di teste, Itália, 1963)
CF: Sim. Ela fazia parte de um grupo de dançarinas chamado Bluebell
Girls, junto com a Gloria Paul. Elas dançavam em cabarés por toda a Europa e
faziam um puta sucesso. Lembro também que a Demongeot teve um caso com o
Tom Jobim e deu uma merda danada, o casamento dele quase acabou (risos).
Da esquerda para a direita: Luiz Bonfá, Laura Brown, Gloria Paul, João Gilberto, Tom Jobim e Sylva Koscina em COPACABANA PALACE
FV: Quando você decidiu ir para a Itália? Quais os motivos que o
levaram?
CF: Estava cada vez mais difícil de conseguir emprego aqui. Norma
Bengell era minha amiga, eu já havia trabalhado com ela num filme do Hélio
Souto, Conceição (1960). Bem, a Norma
tinha ido para a Itália e estava construindo uma carreira muito bacana. Eu escrevi
uma carta pedindo conselhos e se ela achava que eu tinha alguma chance
de “acontecer” lá. Ela me respondeu dizendo que era difícil, mas não
impossível, que a indústria estava a mil por hora. Aluguei meu apartamento em São
Paulo para o Hélio Souto, vendi meu Jaguar - isso partiu meu coração - e comprei
uma passagem de ida para Roma. Isso foi no fim de 1962. Eu sempre fui muito
ousado, sempre me arrisquei.
Cheguei em Roma e fui para o Hotel De La Ville, caríssimo, na época. A
Norma me apresentou ao agente dela e eu andava para cima e para baixo com uma
pasta cheia de fotos minhas. Não aconteceu porra nenhuma. Nada de trabalho.
Depois de um tempo, aconteceu o inevitável: o dinheiro acabou. Foi aí que
encontrei outro brasileiro, Wladimir Lundgreen, que estava por lá tentando
vender uns roteiros que ele havia escrito. Nunca vendeu porra nenhuma. Deixei o
hotel e alugamos um apartamento vagabundo. Essa foi uma época difícil, viu?
Ninguém tinha dinheiro. Eu costumava ir à feira, roubava um pedaço gigante de
queijo e saía correndo o mais depressa que eu podia! (risos) A Laura Brown
costumava nos visitar e comeu muito desse queijo roubado!
O Wladimir estava namorando uma menina americana que tinha sido
figurante de Cleópatra (1963),
provavelmente carregando um balde d’água perto da Elizabeth Taylor (risos). Ela
também estava dura e sempre estava por lá. Ficamos um ano nesse
apartamento e, depois de todos os tipos de desculpas para não pagar o aluguel,
fomos despejados. O senhorio ficou com as nossas roupas como ‘pagamento’, até
que pudéssemos quitar a dívida. Não tínhamos porra nenhuma e agora não sabíamos
nem para onde ir. Nunca esqueci esse momento: eram seis horas da tarde e
estávamos sentados na Piazzale Clodio,
pensando no que fazer da vida. Wladimir tinha conseguido trazer o seu violão,
seu único pertence. “Celso, estamos fodidos, é o fim. Para onde vamos?” Eu, com
muita calma, respondi:
- “Não se preocupe. Amanhã almoce comigo no Hotel De La Ville!”
- “Está louco?”
- “Não. Encontre-me lá amanhã. Táxi!”
Ele não acreditava. Eu não tinha uma lira no bolso e estava voltando
para um dos hotéis mais caros de Roma... E de táxi!
Ao chegar no hotel, o porteiro me recebeu:
- “Signore Faria, bem-vindo novamente! Sua bagagem?”
- “Terrível, minhas malas foram extraviadas, foram todas para Milão.
Olhe, estou sem troco, pague o táxi para mim, per favore, ok?”
Lá estava eu, morando num puta hotel, sem roupas e sem dinheiro. Uma ou
duas semanas depois encontrei um amigo do meu pai na rua e pedi dinheiro emprestado,
o suficiente para quitar a dívida e pegar minhas roupas de volta. Foi um dos
períodos mais felizes da minha vida. Eu passava o dia no bar do hotel comendo e
bebendo, enquanto comia mulheres de todos os cantos do mundo. Eram inglesas,
americanas e até japonesas. Até que um dia fui chamado à recepção:
- “Signore, o que está
havendo? O senhor não nos paga desde que chegou!”
- "Amico, você não acompanha as
notícias? Aconteceu um golpe militar no meu país! Sangue foi derramado! O dinheiro das minhas
fazendas está todo bloqueado! O que posso fazer?"
Eles foram gentis e me deixaram ficar, desde que eu não comesse
mais! Mas eu era amigo do barman,
Bruno, um napolitano. Os napolitanos se acham o povo mais esperto do mundo.
Quando ele soube da minha história, ele me achou um Deus, o mestre dos mestres.
- “Celso, não se preocupe, eu lhe darei algo todo dia. Você tem a minha
admiração!”
E foi assim que eu fiquei nesse hotel por cinco meses, bebendo, comendo
e fodendo, até que me despejaram. De novo!
A FERA foi solta nos cinemas cariocas em fevereiro de 1978, em seis salas no município do Rio (Pathé, Roma, Paratodos, Bruni Tijuca, Bruni Copacabana e Irajá) e no Cine Glória, de São João de Meriti. A estreia ocorreu mais de um ano e meio após a exibição na Itália - o visto de censura italiano data de julho de 1976. Pode-se supor que o motivo do atraso tenha sido burocrático: como o filme foi processado em laboratório italiano, a obtenção do famigerado Certificado de Produto Brasileiro (CPB) deve ter sido problemática.
A demora não ajudou e o filme passou batido nas bilheterias. Na segunda semana de exibição, o circuito já havia sido reduzido para apenas três salas.
Só reapareceria em setembro de 1982, quando estreou na televisão brasileira na "Sessão Proibida", da TVS (atual SBT), no horário ingrato das 23h.
A recepção crítica, como esperado, não foi diferente. Italianos (ver a primeira parte do artigo) e brasileiros desceram a lenha:
Jornal do Brasil, 24 de fevereiro de 1978
Abre parêntesis.
A irritação do crítico com a concessão do CPB (após quase dois anos de espera!) a uma "coprodução desse nível" - que também contou com atores e técnicos brasileiros -, enquanto IRACEMA, UMA TRANSA AMAZÔNICA (Brasil, 1975), de Orlando Senna e Jorge Bodanzky (com zê), permanecia "na fila" é equivocada. IRACEMA, que foi processado em laboratório no exterior, ficou quatro anos na prateleira pois foi vítima da feroz censura política do então Ministro da Justiça, Armando Falcão - famoso pelo "democrático" bordão "nada a declarar". A burocracia - real - do certificado foi um pretexto para engavetar um filme que mostrava um Brasil que o regime militar queria esconder. São casos bastante distintos. E independentes.
Fecha parêntesis.
DESAFIANDO CRÍTICOS FERAS E TEMPESTADES!
URSUS (idem, 1961), de Carlo Campogalliani, com roteiro de Carnimeo. Dist. Art Films.
Franco & Ciccio são OS DOIS FILHOS DE RINGO
O desprezo unânime dos críticos não era novidade para o diretor Giuliano Carnimeo (1932 - ), um italiano de Bari especializado em gêneros esculhambados pela 'intelligentsia' como westerns e comédias eróticas. Tal como a maioria dos artífices do cinema popular local do pós-guerra, Carnimeo aprendeu o ofício nos sets de filmagem, como assistente de direção e roteirista de cineastas veteranos. Trabalhou com Carlo Campogalliani - no 'peplum' URSUS (idem, Itália/Espanha, 1961) -, Camillo Mastrocinque - ROMANCE NO INVERNO (Vacanze d'inverno, Itália/França, 1959) - e, principalmente, com Giorgio Simonelli, em veículos para a dupla de comediantes Franco Franchi e Ciccio Ingrassia - a versão peninsular de Jerry Lewis e Dean Martin - como OS DOIS MAFIOSOS (I due mafiosi, Itália/Espanha, 1964) e OS DOIS FILHOS DE RINGO (I due figli di Ringo, Itália, 1966). Quando Hollywood tomou o Tibre, de olho na boa estrutura e nos baixos custos de produção, Carnimeo aproveitou a oportunidade: dirigiu a versão italiana do primeiro filme europeu do norte-americano George Sherman, SUAVE É O AMOR (Panic button... operazione fisco!, Itália/EUA, 1963), com Jayne Mansfield e Maurice Chevalier.
A adoção de pseudônimos anglicizados por parte de diretores, técnicos e
atores estrangeiros era uma lei não escrita na Itália dos anos 1960.
Visando "americanizar" seus produtos, Sergio Leone virou "Bob
Robertson", Antonio Margheriti renasceu como "Anthony M. Dawson" e, em
casos mais esdrúxulos, o lendário cenógrafo Franco Fumagalli foi
rebatizado, literalmente, como "Frank Smokecocks" em O DIABÓLICO DR.
HICHCOCK (L'orribile segreto del Dr. Hichcock, Itália, 1962), de Riccardo Freda. Assim surgiu "Anthony Ascott", nome
com que assinaria seus melhores trabalhos e acompanharia Carnimeo até o fim de
sua carreira.
Jesus Cristo FACE A FACE COM O DIABO num filme de Anthony Ascott e Hugo Fregonese. Dist. River Filmes
A carreira de diretor deslancharia a partir de 1968, com dois westerns: o excelente FACE A FACE COM O DIABO (Joe... Cercati un posto per morire!/Find a place to die, Itália, 1968) - co-dirigido pelo argentino Hugo Fregonese e estrelado pelo ex-Jesus Cristo Jeffrey Hunter, visivelmente debilitado pelo excesso de goró - e o 'mezzo giallo' BANDOLEIROS VIOLENTOS EM FÚRIA (Il momento di uccidere, Itália/Alemanha, 1968), terceira parceria com seu ator fetiche, o uruguaio George Hilton.
No ano seguinte, um pistoleiro vestido de negro da cabeça aos pés cruzaria o caminho de Ascott. E o sucesso bateria à sua porta em grande estilo.
Gianni Garko é SARTANA
Corte rápido.
No final de 1966, a dupla Alberto Cardone e Mario Siciliano lançava seu segundo western bíblico, o excepcional JOHNNY TEXAS (1000 dollari sul nero/Blood at sundown, Itália/Alemanha, 1966), que praticamente repetia equipe e elenco do filme anterior, SETE DÓLARES ENSANGUENTADOS (7 dollari sul rosso, Itália/Espanha, 1966). A estrela da companhia era novamente o astro ítalo-brasileiro Antonio de Teffé, o "Anthony Steffen".
'Fotobusta' italiana de JOHNNY TEXAS. Na TV brasileira, o filme foi exibido como MIL DÓLARES NO PRETO
O roteiro, escrito a quatro mãos por Ernesto Gastaldi e Vittorio Salerno, reinventa a história de Caim e Abel no Velho Oeste. No filme, o personagem de Teffé volta à cidade natal após cumprir pena por um crime cometido por seu irmão, o sádico "el general" Sartana (Gianni Garko, creditado como John Garko). Obcecado pela mãe e com delírios de divindade, Sartana habita um templo asteca em pleno deserto e não perde a chance de chutar mulheres e inválidos. Garko, inspirando-se no gângster de Richard Widmark em O BEIJO DA MORTE (Kiss of death, EUA, 1947), de Henry Hathaway, rouba cada uma das cenas em que aparece. Em entrevista à revista norte-americana "Video Watchdog", Gastaldi revelou que o nome do personagem surgiu quando ele e Salerno trocaram "uma das letras do nome do general mexicano Antonio López de Santa Anna", o polêmico "Napoleão mexicano".
Santa Anna, quem diria, acabou em Cinecittà
O sucesso foi estrondoso, especialmente na Alemanha.
O produtor italiano Aldo Addobbati foi rápido no gatilho e procurou Garko para protagonizar um novo western. O roteiro inicialmente proposto - mais uma história de vingança - não agradou e foi recusado pelo ator, que queria exercitar sua veia cômica. Propôs uma troca: faria o filme caso pudesse escolher o roteiro. Garko relembrou sua versão da história à revista italiana "Nocturno":
"Mal assinei o contrato, Addobbati me mostrou um cartaz no qual se lia em letras garrafais: 'John Garko in SARTANA'. Não entendi. 'Mas o que é isso?', perguntei, 'Eu não fiz esse filme!' E ele: 'O personagem do general Sartana em JOHNNY TEXAS agradou tanto aos alemães que eles decidiram mudar o título do filme'. Eu não fazia ideia do sucesso na Alemanha. Aldo disse: 'O filme que vamos fazer vai se chamar SARTANA, pois eu já vendi o projeto aos alemães com esse título!' Bem, se eu soubesse disso antes de assinar o maldito contrato, teria pedido mais dinheiro, mas fiquei feliz em ter a palavra final no roteiro".
Cartaz francês de JOHNNY TEXAS
Garko trouxe um amigo, Renato Izzo, para trabalhar no tratamento escrito por Fabio Piccioni, Luigi De Santis e Adolfo Cagnacci, que foi bastante modificado. A ele se juntou o cineasta Gianfranco Parolini, o "Frank Kramer", um veterano de aventuras halterofilísticas como SANSÃO (Sansone, Itália/França, 1961) e OS DEZ GLADIADORES (I dieci gladiatori, Itália, 1963), e da série de espionagem KOMMISSAR X, que substituiu o diretor original, Guido Zurli, que brigou com Addobbati.
Nascia o personagem que se tornaria um ícone do western spaghetti: Sartana, o caçador de recompensas. Vestido de negro, chapéu sobre os olhos, cigarrilha entre os lábios, capa preta forrada de vermelho à la Mandrake e com um baralho e uma pistola Derringer de quatro canos escondidos na manga, Sartana era o James Bond do Velho Oeste.
SE ENCONTRAR SARTANA, REZE PELA SUA MORTE (...Se incontri Sartana, prega per la tua morte, Itália/Alemanha/França, 1968) foi lançado na Itália em 1968, no verão escaldante de agosto, quando Roma vira uma cidade fantasma. A estratégia pouco convencional deu certo: barato, o filme virou um fenômeno de bilheteria. O êxito se repetiu no resto da Europa, na Ásia e Oriente Médio. Garko foi elevado ao patamar de 'superstar'. Seu cachê por filme aumentou dez vezes.
Cartaz italiano do filme de Parolini
O sucesso gerou um processo contra Addobbati por parte de Mario Siciliano, que reivindicava os direitos sobre o nome do personagem. Ficou a ver navios.
A estreia no Rio ocorreu em março de 1970, com distribuição da River Filmes num circuito encabeçado por duas salas populares - cines Plaza (Passeio) e o gigantesco Olinda (Tijuca) -, além do Hermida (Bangu), Mascote (Méier), Ricamar (Copacabana) e Mello (Penha Circular).
Sartana ficou sem cavalo e chegou atrasado ao Rio em março de 1970
"Fade".
O retorno do pistoleiro às telas era uma questão de tempo. Addobbati iniciou rapidamente os preparativos para uma sequência. A novidade foi a ausência de Parolini, que brigou com o produtor - a quem chamaria mais tarde de "um cafona ignorante". Levou consigo o roteirista Renato Izzo e assinou com Alberto Grimaldi, responsável pelos filmes de Sergio Leone, para dirigir SABATA, O HOMEM QUE VEIO PARA MATAR (Ehi amico... c'è Sabata, hai chiuso!, Itália, 1969), com Lee Van Cleef no papel título.
Saíam Izzo e Parolini, entravam Tito Carpi e Anthony Ascott.
Fora o desejo da Sra. Salvatore Argento em voltar ao Rio, pouco se sabe sobre o nascimento da FERA.
A parte brasileira da produção ficou a cargo do ex-ator português Roberto Acácio, falecido em 1994. Acácio foi responsável por chanchadas de Watson Macedo (O PETRÓLEO É NOSSO, CARNAVAL EM MARTE) e pelos primeiros filmes brasileiros do argentino Carlos Hugo Christensen (MÃOS SANGRENTAS e LEONORA DOS SETE MARES). A FERA CARIOCA foi a segunda empreitada da Cinemática, sua nova produtora. A primeira havia sido OS PRIMEIROS MOMENTOS (1973), de Pedro Camargo.
'Release' brasileiro do filme de Enzo Castellari
O roteiro é creditado ao prolífico Tito Carpi, Leila Buongiorno e ao brasileiro Luiz Antonio Piá.
Carpi,
com quase cem filmes em seu currículo, era amigo e parceiro habitual do
diretor Marino Girolami e de seu filho, o também cineasta
Enzo G. Castellari. Seus créditos incluem POUCOS DÓLARES PARA DJANGO,
VOU.. MATO... E VOLTO, MOMENTOS DE DESESPERO e INFERNO NO OESTE.
Piá, veterano diretor de TV - atualmente no SBT -, dirigiria SEXO E
VIOLÊNCIA E BÚZIOS (1978) e O HOMEM DE SEIS MILHÕES DE CRUZEIROS CONTRA
AS PANTERAS (1978), 'hit' de bilheteria com o comediante Costinha como um homem biônico às voltas com o sequestro do jogador de futebol Marinho, da seleção brasileira.
Costinha, o Lee Majors tupiniquim
Sem o filme à mão, o jeito é recorrer ao Guia de Filmes da Embrafilme, que trazia - no número 73/75 e 76/78 (filmes com estreia no Brasil durante o ano de 1978) - a mais completa sinopse de A FERA CARIOCA:
"Aventura policial humorística. Carlo (Michael Coby), boa vida italiano, embarca clandestinamente para o Rio, visando a receber herança deixada por seu pai Gennarino, ex-pistoleiro de Rosalindo Y Guana (Cesar Romero), rico chefão aposentado da máfia sul-americana. No navio, conhece Augusto (Augusto Alves), também clandestino, que leva um contrabando para seu tio Tigre (Aldo Maccione), pobre e sonhador marginal brasileiro. No Rio, os três aliam-se para conseguir a fita gravada que contém o testamento e se defender de Y Guana, também interessado em obter a herança, uma pistola cravejada de pedras preciosas, outrora pertencente ao mafioso. Após contratar um pistoleiro de Dallas, aprisioná-los numa fábrica de conservas para cães, de sua propriedade, persegui-los numa escola de samba e segui-los ao Rio Grande do Sul, Y Guana, acompanhado de seus capangas, defronta-se com Carlo, Tigre e Augusto numa penitenciária cujo diretor mantinha a pistola num aquário cheio de piranhas. Desencadeia-se tremenda luta, que termina com a prisão de Y Guana e a apreensão da pistola pela polícia. Desiludidos, os três malandros retornam ao Rio, iniciando nova viagem em busca de outra mirabolante fortuna: um bilhete de loteria deixado em roupa dada a um camponês, e que tinha sido premiado".
Seria curioso ver o gorducho Maccione como carioca - vestindo um terno listrado, daí o apelido "Tigre" - e o ex-Cisco Kid e ex-Coringa Cesar Romero como um traficante latino, além das participações de Grande Otelo e Milton Gonçalves (como um macumbeiro).
Nas mãos de um Zalman King, viraria ORQUÍDEA SELVAGEM.
A sequência de Lo chiamavano Trinità batendo recordes de bilheteria no Rio
Legítimo produto italiano do final dos anos 1970, FERA é, muito provavelmente, um dos muitos filmes inspirados no estrondoso e inesperado sucesso de CHAMAM-ME TRINITY (Lo chiamavano Trinità..., Itália, 1970) e TRINITY AINDA É MEU NOME (... continuavano a chiamarlo Trinità, Itália, 1971).
Abre parêntesis.
O díptico cômico de Enzo Barboni deu sobrevida ao então moribundo western spaghetti nas bilheterias. Em pouco tempo, o mercado foi invadido por sósias da dupla Mario Girotti e Bud Spencer - mais conhecidos pelos pseudônimos "Terence Hill" e "Bud Spencer", respectivamente. Os dois fariam mais onze filmes juntos, como protagonistas, após TRINITY AINDA É MEU NOME. Tal como a FERA, vieram ao Rio de Janeiro, onde rodaram EU, VOCÊ, ELE E OS OUTROS (Non c'è due senza quattro, Itália, 1984) e gravaram uma participação no programa de TV de Didi, Dedé, Mussum e Zacarias.
Fecha parêntesis.
Cartaz brasileiro de Lo chiamavano Trinità (1970), de Enzo Barboni ("E.B. Clucher"). Coleção Fábio Vellozo
A ideia de contrafação é reforçada pelo crítico anônimo, curto e grosso da publicação do Centro Cattolico Cinematografico, "Segnalazioni cinematografiche", LXXXII (1977): "Commedia all'italiana sem novidades derivada do sucesso da dupla Hill-Spencer"; e pela escolha do protagonista, o italiano Antonio Cantafora, na época famoso como "Michael Coby".
Cantafora, um calabrês louro e boa pinta, "estourou" em 1974, ao lado do gordo Paul L. Smith, no modesto CARAMBOLA (Itália, 1974), de Ferdinando Baldi, imitação descarada dos "blockbusters" de Barboni.
Tornaram-se os clones de maior sucesso de Trinità (Hill) e Bambino (Spencer).
Cartaz brasileiro de Carambola (1974), de Ferdinando Baldi. Coleção Fábio Vellozo
Fariam mais quatro filmes juntos: uma sequência de CARAMBOLA, TRINITY E CARAMBOLA - A DUPLA INVENCÍVEL (Carambola, filotto... tutti in buca, Itália, 1975), também de Baldi;
TRINITY E CARAMBOLA NA TRILHA DA AVENTURA (Noi non siamo angeli, Itália, 1975), de Gianfranco Parolini ("Frank Kramer", o criador das séries Sartana e Sabata), que não é Trinity nem Carambola;
Hill e Spencer? Não, Cantafora (ao volante) e Smith
e outros dois filmes como a dupla "Simone e Matteo": CONTINUO ME CHAMANDO CARAMBOLA (Simone e Matteo: Un gioco da ragazzi, Itália/Espanha, 1975) e TRINITY E CARAMBOLA, OS PARCEIROS DO DIABO (Il vangelo secondo Simone e Matteo, Itália, 1976).
Estreia no Rio do primeiro filme da dupla "Simone e Matteo"...
...e de sua sequência, também dirigida por Giuliano Carnimeo
As aventuras de Simone e Matteo - ou "Toby" e "Butch", na versão em inglês - foram dirigidas por Giuliano Carnimeo, o diretor de A FERA CARIOCA.
Corte rápido.
Smith, falecido em 2012, é mais lembrado como o Brutus do POPEYE (1980), de Robert Altman, e o carcereiro de O EXPRESSO DA MEIA NOITE (1978), de Alan Parker. Não bastasse a semelhança física com Bud Spencer, ambos 'soavam' idênticos: Smith foi propositadamente dublado em italiano pelo ator Glauco Onorato, o mesmo que emprestava a voz a Spencer. O curioso é que, como Onorato também atuava nos CARAMBOLA dirigidos por Baldi, ele próprio teve de ser dublado por outro ator, para que dois personagens do mesmo filme não falassem com a mesma voz!
Quanto a Coby e Maccione, ambos voltariam ao Rio a trabalho.
Em 1982, Cantafora podia ser visto com Marcello Mastroianni na badalação da noite carioca nos intervalos de filmagem de GABRIELA (1983), de Bruno Barreto, em que interpretou Tonico Bastos.
Maccione, por sua vez, estrelaria NO RIO VALE TUDO (Si tu vas à Rio... tu meurs, 1987, França/Brasil), de Philippe Clair, ao lado de uma Roberta Close pré-cirurgia.